Dissecando a Piada

 

Regra #1 – Toda piada é dividida em duas partes:

  • Set up (vou traduzir como “preparação”)
  • Punch line (vou traduzir como “desfecho”)

A preparação nos transmite uma informação.

O desfecho nos faz rir.

No Brasil é comum ouvir dizer que na comédia todo bom humorista tem um “escada”. E há uma tradição nesse sentido, no Brasil e no mundo: Oscarito e Grande Otello, Didi e Dedé, Dean Martin e Jerry Lewis, Abbott e Costelloo, o Gordo e o Magro etc.

O escada é o responsável por dar o set up ou preparar a piada.

Enquanto o comediante dá a punch line ou o desfecho, que nos faz rir.

O escada levanta. O comediante corta.

Evidente que só isso não é capaz de explicar porque rirmos de uma piada.

A questão é que na preparação (set up) da piada há uma pegadinha, um truque, que tem a intenção proposital de nos confundir, de nos induzir ao equívoco, à direção errada.

O truque é, na verdade, uma segunda história ou ideia contida na mesma sentença, um duplo sentido não revelado de cara.

Regra #2 – Uma piada são duas ideias que caminham juntas até certo ponto.

A primeira ideia é a mais óbvia, a que primeiro nos vêm à cabeça.

A segunda ideia nos surpreende e faz rir.

Exemplo #1  (Greg Dean)

“Minha mulher fugiu com meu amigo…” (set up)

Ideia #1 (óbvia) Estou infeliz porque sinto falta da minha mulher

Ideia #2 (surpresa) Estou infeliz porque sinto falta do meu amigo.

“…Meu Deus, como eu sinto a falta dele.” (punch line)

Exemplo #2  (Greg Dean)

“Meu avó morreu em paz, enquanto dormia…” (set up)

Ideia #1 (óbvia) Meu avô morreu em casa, de causas naturais, enquanto dormia.

Ideia #2 (surpresa) Meu avô dormiu enquanto dirigia um ônibus escolar.

“Mas as crianças do seu ônibus berraram muito.” (punch line)

Exemplo #3  (Woody Allen)

“Estava andando na floresta pensando em Jesus Cristo…” (set up)

Ideia #1 (óbvia) Estava pensando em Jesus Cristo, o líder religioso.

Ideia #2 (surpresa) Estava pensando em Jesus Cristo, o filho de um carpinteiro.

“Quanto será que ele cobrava pra fazer uma estante?” (punch line)

Exemplo #4  (Roseanne Barr)

“Estou casada há quinze anos e tenho três filhos…” (set up)

Ideia #1 (óbvia) Ela tem uma família perfeita e adora a maternidade

Ideia #2 (surpresa) O casamento é uma prisão.

“Obviamente, eu reproduzo bem em cativeiro.” (punch line)

Regra #3 – “…uma frase pode tornar-se cômica quando consegue conservar ainda um sentido mesmo depois de se alterar ou quando exprime indefinidamente dois sistemas de idéias completamente independentes…”. Henri Bérgson

Pense em qualquer piada. Ela sempre terá duas partes:

  • Set up (preparação)
  • Punch linha (desfecho)

Mesmo uma piada infame, onde a punch line, propositalmente, não tem nenhuma graça.

# Se a segunda ideia ou história escondida for óbvia demais, o público antecipará o final da piada e ela não terá graça. 

# Se a segunda ideia for difícil demais de entender, o público ficará confuso e também não irá rir.

Por isso é preciso clareza e concisão na mesma medida.

Mas não é apenas a surpresa que nos faz rir. É mais do que isso.

SET UPS

# É aconselhável que a preparação (set up) contenha uma verdade inegável, uma informação com a qual o público concorde e, de preferência se identifique.

# É melhor ainda que a preparação (set up) contenha um pensamento original sobre um fato ou tema. Uma visão que nos revele um outro prisma de uma verdade ou fato.

RELAÇÃO ENTRE SET UP E PUNCH LINE

Set up – uma informação original, um ponto de vista novo sobre um tema, ou sobre uma verdade inegável.

Punch line – uma mudança brusca de direção, uma surpresa. Um exagero dessa “verdade”.

Não é qualquer surpresa ou mudança de direção que nos fará rir.

Existe uma relação intrínseca entre o set up e a punch line. Essa relação é o que o filósofo Henri Bergson escreve ser o cerne de toda comédia, a própria natureza do riso:

Lei do Riso #1 – O que nos faz rir é o mecânico inserido na vida.

Rimos de tudo que nos lembre ou nos remeta ao mecânico inserido na vida, quando esta deveria ser fluida, vibrante, surpreendente, “viva” e não automática.

O agir mecanicamente, por exemplo, em um impulso que não sabe distinguir obstáculos, tem sido fonte inesgotável de números engraçados.

Um homem anda distraidamente pela rua. Anda mecanicamente. Há uma casca de banana no caminho. O homem distraído não percebe a casca, pisa sobre ela, escorrega e cai. Nós rimos do homem porque ao cair é como se ele revelasse que, mesmo que por alguns instantes, andava tão mecanicamente que foi incapaz de se desviar da casca de banana.

Quando “caímos” numa piada revelamos nosso modo mecânico de pensar que não foi capaz de perceber a segunda ideia ou história que o set up da piada “escondia”.

O público é o homem que caminha distraído. A piada é a casca de banana no meio do caminho, que faz o homem escorregar, mudar de direção e cair.

O comediante armou a piada de um jeito que o público não percebeu a segunda idéia que ela continha e induziu a platéia a seguir em uma direção. Em determinado momento, lá estava a casca de banana, a mudança de direção da piada, que segue no sentido da segunda ideia que até aquele momento parecia oculta. Como o homem que anda distraído, apressado, mecanicamente, o público não percebe a casca de banana e escorrega em seu próprio raciocínio, que continha um equívoco, armado pelo comediante, como a casca de banana atirada no meio do caminho. O público cai e ri ao perceber que, mecanicamente, estava seguindo na direção errada.

Quanto mais a piada revelar um mecanismo contido na própria vida ou no cotidiano, do qual ainda não nos havíamos dado conta, mais ela será engraçada.

Setup: (INFORMAÇÃO)

“Liberais acham que não merecem o que tem…”. (afirmação que parece verdadeira)

Ideia #1 – Estamos criticando os liberais. Quem conta a piada é contra os liberais.

Punch line: (EXAGERO)

“… Conservadores tem certeza que são dignos de tudo o que eles roubaram.”

Ideia #2 – Na verdade, estávamos criticando os conservadores. Citamos os liberais para deliberadamente desviar o foco.

Há um mecanismo de uso de palavras e inversão de ideias nas próprias sentenças.

Não merecer o que se tem X Ser digno do que se rouba.

Ao mesmo tempo, dividir o mundo entre liberais e conservadores é uma forma de mostrar uma espécie de engrenagem nas relações de trabalho e filosofias de vida. Como se elas fossem maiores que os próprios seres humanos e suas vontades, aprisionando-os numa espécie de armadura (explicarei melhor isso em outro momento).

Por enquanto é isso. Até o próximo post!

 

 

 

 

 

 

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