Efeitos Causadores do Riso

Se você leu o post anterior, já sabe que a piada é dividida em 2 partes:

  1. Set up (preparação) 
  2. Punch line (desfecho).

Sabe que o set up é a parte que não é engraçada, mas deve conter uma “verdade” e, de preferência, um ponto de vista original sobre essa “verdade”.

Mais, o set up carrega nele duas ideias. A 2a ideia ou sentido encontra-se escondida “de baixo” do sentido mais óbvio, ou claro.

A punch line revela o 2o sentido ou ideia que estava oculto, causando a surpresa e o riso.

A punch line, normalmente, também carrega algum exagero.

Nesse ponto você – e aliás muitos comediantes – pode pensar que basta que a punch line tenha uma surpresa ou um exagero que faremos com que a plateia role de rir.

ERRADO!

A relação entre o set up e a punch line é importantíssima e revela o cerne, a alma de todo o riso:

# o mecânico inserido na vida.

Talvez você ainda não tenha se dado conta da importância disso, mas o assunto é tratado com profundidade nos ensaios do filósofo Henri Bergson reunidos em seu livro O RISO (que você consegue baixar na internet em PDF).

Poucos humoristas, de fato, dão a verdadeira importância para essa grande revelação de Bergson.

# O  riso sempre passará pelo mecânico inserido na vida e em seus desdobramentos.

Aqui um pequeno resumo dos EFEITOS CAUSADORES DO RISO listados por Henri Bergson:

#1 – A rigidez ou velocidade adquirida que nos fazem dizer ou fazer o que não pretendíamos é cômica porque revela o mecânico inserido na vida.

É precisamente o caso do homem que escorrega na banana e cai,  nos fazendo rir.

# Extensivamente, um vestuário poderá implicar em rigidez em relação ao corpo.

Lembre-se das inúmeras situações engraçadas que você já assistiu em filmes ou peças de teatro em que um personagem tem dificuldade em “caber” dentro de uma roupa. Ou como determinada vestimenta pode ser engraçada quando ela contraria ou exacerba a personalidade ou caráter de uma personagem.

# O corpo implicará em rigidez em relação à alma.

Exemplo: Um padre que fala de Deus provocará involuntariamente o riso se sentar-se no meio de um sermão. Diz-se que todo discurso torna-se engraçado se o palestrante resolve sentar-se.

# As palavras e a linguagem em relação às ideias.

Exemplo: tente reduzir qualquer ideia em uma regra implacável e ela se tornará  cômica.

Aqui cabe o exemplo do post anterior:

“Liberais acham que não merecem o que tem. Conservadores tem certeza que são dignos de tudo o que eles roubaram.”

E assim por diante.

Mais adiante, em outro post, mostrarei como usar essas relações para gerar um poderoso mecanismo de criação de piadas, personagens e situações cômicas.

#2 – O vício que parece inserir a pessoa que o tem em uma couraça, simplificando-a é cômico.

Não por acaso, várias comédias tem em seu título uma característica do protagonista, em vez do seu nome. Repare nos títulos dessas peças de Molière:

O PRÍNCIPE CIUMENTO, O CORNUDO IMAGINÁRIO, O MISANTROPO, O AVARENTO, O ANFITRIÃO, O BURGUÊS FIDALGO, AS ERUDITAS, O DOENTE IMAGINÁRIO etc.

Compare com algumas tragédias de Shakespeare:

HAMLET (e não O Príncipe Bi Polar)

RICARDO III (e não O Rei Manco)

OTELLO (e não O Ciumento)

MACBETH (e não O Ganancioso)

ROMEU E JULIETA (e não Os Enamorados)

# Diferença entre Drama e Comédia: O drama aprofunda as falhas que tornam a personagem única e particular. A comédia reduz a personagem aos defeitos ou cacoetes que a transformam num tipo facilmente identificável pelo público. 

# 3 – A rigidez de caráter é cômica na medida em que aprisiona o ser humano a um determinado tipo de atitude.

É cômica a personagem que segue o seu caminho automaticamente sem tratar de tomar contato com os outros. Por isso podemos rir tanto dos defeitos quanto das qualidades de uma pessoa. Basta que esta qualidade implique em uma rigidez social, ou de caráter.

Talvez o melhor exemplo da rigidez de caráter seja o personagem de Cervantes, Dom Quixote.

# Um vício corrigível é menos fácil de ridicularizar do que uma virtude inflexível.

Exemplos:

  • Um médico que está sempre examinando os outros, principalmente, aqueles que não são seus pacientes.
  • Um general que trata a família sob rígidas normas militares.
  • Um doente apegado as duas enfermidades.
  • Um advogado que trata de qualquer assunto sob a ótica da lei.

E assim por diante (a maioria dos protagonistas das comédias de Molière).

# 4 – O mecanismo inserido na vida:

“Por favor, repita o eclipse para que eu possa vê-lo.”

# 5 – Uma regulamentação automática da sociedade:

“Depois de cometer o crime ele fugiu sobre os trilhos infringindo uma lei da companhia.”

#6 – Uma regulamentação humana a substituir as leis da natureza.

“Deveríamos abolir a lei da gravidade, já que elas nos aprisiona ao chão”.

Tudo isso aponta para um outro aspecto da comédia observado por Bergson: Tensão e Elasticidade estão sempre presentes (veremos isso em detalhes quando falarmos do Cômico das Situações).

  • Faltam ao corpo: temos os acidentes de todas as espécies; as doenças, as imperfeições, etc.
  • Faltam ao espírito: todas as variedades da loucura.
  • Faltam ao caráter: temos as inadaptações profundas à vida social.

No próximo post, vou falar sobre as Leis do Cômico definidas por Henri Bergson.

Até lá!

 

 

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