As Leis do Cômico

O filósofo Henri Bergson estabeleceu as leis do cômico num de seus ensaios reunidos no livro O RISO.

# 1 – O Mecânico inserido naquilo que é vivo.

Tudo que nos lembrar ou remeter a algum mecanismo inserido em nossas vidas será cômico. Esse efeito é extremamente amplo e praticamente todas as demais leis do cômico, no fundo, derivam dessa primeira lei.

Pense no quid pro quo (em português, quiprocó).

Quid pro quo é uma expressão latina que significa “tomar uma coisa por outra”. Refere, no uso do português e de todas as línguas latinas, uma confusão ou engano.

Quiproquó é o nome dado para uma situação onde determinado equívoco é gerado por engano. O quiproquó é definido quando alguém confunde um objeto ou situação pelo seu total oposto, através de uma ação considerada tola e mal-entendida.

No quiprocó, uma ação tomada a partir de um erro de julgamento ou equívoco provoca um efeito em cadeia de erros sucessivos com consequências cada vez piores. Esse é um famoso efeito usado em comédias até hoje. E o que é o quiprocó se não um mecanismo inserido na vida? As pessoas vão agindo como peças dentro de uma engrenagem, sem se darem conta do erro inicial e como se não pudessem voltar atrás para consertar seus equívocos.

Vamos ampliar um pouco esse pensamento. Lembre-se agora dos diversos filmes besteirol que fizeram tanto sucesso na década de 80 e 90. APERTEM OS CINTOS, O PILOTO SUMIU, a série CORRA QUE A POLÍCIA VEM AÍ, a série TOP GANG. O que esses filmes tem em comum? Eles satirizam gêneros do cinema. Mas o que são os gêneros com as suas regras e pilares se não uma espécie de couraça que engessa a história? Ao dar ênfase a estrutura do gênero, em vez de escondê-la atrás da história, criamos humor e piadas porque estamos revelando o mecânico inserido na história.

Woody Allen é um mestre nisso.

No livro Cuca Fundida que reúne pequenas crônicas públicadas em revistas, Woody Allen faz uso de diversos gêneros para criar textos engraçadíssimos.

# 2 – Rimos de tudo o que nos dá a impressão de ser um disfarce. Por isso, será cômica toda a deformidade que uma pessoa for capaz de imitar, como se tal não passasse de um disfarce.

Outro efeito muito utilizado em comédias.

O JOVEM FRANKENSTEIN.jpg

Você se lembra do personagem hilário interpretado pelo genial Marty Feldman no filme O JOVEM FRANKENSTEIN de Mel Brooks cuja corcunda mudava de lugar? Talvez o melhor exemplo de uma deformidade cuja imitação é capaz de provocar muitas risadas.

Lembre-se também das inúmeras vezes em que Pernalonga se disfarçou de mulher para enganar seus algozes.

As comédias baseadas na troca de papéis, que nada mais são do que o uso de disfarces para fugir de uma situação complicada.

Em QUANTO MAIS QUENTE MELHOR, Tony Curtis e Jack Lemmon disfarçam-se de mulher para fugir dos gangsters que os perseguem.

quanto-mais-quente-melhor_cartaz.jpg

Em MUDANÇA DE HÁBITO, Whoopi Goldberg se disfarça de freira porque é testemunha ocular de um assassinato. Alguma semelhança com o filme de Billy Wilder?

Mudança de Hábito

Em QUERO SER GRANDE Tom Hanks é uma criança que por um processo mágico se transforma num adulto. Ou seja, uma criança disfarçada num corpo de adulto.

Quero ser grande

Só para citar alguns exemplos bem conhecidos. Mas o dirfarce é uma lei tão poderosa do cômico que o filme cujo plot está baseado no disfarce ou na troca de papéis tornou-se praticamente um subgênero dentro da própria comédia.

# 3 – Um homem que se disfarça é cômico. Extensivamente, todo o disfarce vai se tornar cômico, não só o do homem, mas também o da sociedade e até o da natureza.

Ex.: Havia um vulcão e deixaram-no apagar?

# 4 – As atitudes e movimentos do corpo humano são risíveis na medida exata em que esse corpo nos faz pensar numa simples máquina. É o automatismo instalado na vida.

Pense em qualquer comédia de Buster Keaton.

Buster kEATON

Ou nas comédias de Mr Bean para usar um exemplo mais recente!

Mr Bean

Nas comédias genais de Jacques Tati.

hulot.jpg

Mas talvez o melhor exemplo da 4a lei do cômico seja TEMPOS MODERNOS de Charles Chaplin, onde o homem é “engolido” pelas engrenagens e torna-se parte delas.

tempos-modernos2.jpg

# 5 – Rimos sempre que alguém nos dá a impressão de uma coisa.

Charles Chaplin agindo como máquina numa linha de produção em Tempos Modernos também é um bom exemplo de aplicação dessa lei.

# 6 – As cerimônias são para o corpo social aquilo que o vestuário é para o corpo individual.

É como se a cerimônia servisse como uma couraça ou armadura engessando o corpo social. Repare que qualquer cerimônia ou ritual fora de contexto parecerá ridículo e cômico. Não por acaso, muitas comédias escolhem momentos “ritualísticos” para revelar o humor contido neles. As comédias estão repletas de cena em casamentos, funerais, velórios, graduação, formatura etc.

Ótimos exemplos da aplicação eficaz e talensosa dessa “lei” são algumas comédias de Robert Altman, mas entre elas talvez o melhor exemplo seja CERIMÔNIA DE CASAMENTO, que descortina o ridículo por trás desse ritual.

A Wedding

Sem a mesma maestria, Altman revela o ridículo por trás do mundo da moda em Pret A Porter.

Pret a porter

# 7 – É cômico todo o incidente que chama a nossa atenção para o físico duma pessoa quando é o moral que está em causa.

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Assista A VIDA DE BRIAN um ótimo exemplo dessa 7a lei do cômico.

A Vida de Brian

# 8 – Por extensão do item 6: o corpo sobrepondo-se à alma – a forma a querer comprimir o fundo, a letra a querer importunar-se o espírito. Eis a fonte do ridículo profissional explorado em tantas comédias de Moliére. 

Ex.: Médico: “vale mais morrer respeitando as regras do que escapar contra as regras”.

 

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