A RIGIDEZ QUE PROVOCA O RISO

Voltemos ao assunto principal do post anterior: o mecânico inserido na vida (e voltaremos sempre nele, pois, lembre-se, é dele que vem a comédia). O mecânico inserido na vida (agir, falar, ou se comportar mecanicamente) implica em uma certa rigidez.

Por extensão, tudo o que nos servir como uma espécie de armadura, nos aprisionando e limitando-nos de algum modo, será engraçado.

Daí, temos, por exemplo, o corpo aprisionando a alma, ou, os gestos cristalizando as idéias. Napoleão teria dito que qualquer discurso fica engraçado a partir do momento em que a pessoa que fala pede para sentar-se. É como se ela lembrasse da existência do corpo, quando o que está em questão são as idéias fluídas, livres, vivas.

As roupas, no fundo, são uma espécie de “armadura” que aprisiona o corpo, assim como as cerimônias sociais e toda a sorte de convenções inserem certa rigidez em nossa vida cotidiana.

Da mesma maneira, o sentido literal de uma palavra é como uma couraça que aprisiona as idéias que são geradas e estão relacionadas àquela palavra.

Assim sendo, as coisas mundanas, terrenas, o próprio planeta, pode ser considerado uma masmorra onde nos encontramos desterrados, quando nos referimos a metafísica, ao esoterismo, a religião e a tudo o que é sagrado.

Ainda, por extensão, se colocarmos as leis da sociedade acima do bom senso; ou, pior, acima das próprias leis na natureza (como uma armadura que quer moldar o que é incontrolável); se tratarmos os fenômenos naturais como sendo simples mecanismos, teremos também um poderoso efeito cômico.

E tudo isso provém, simplesmente da mesma fonte: o mecânico inserido na vida e a rigidez que ele provoca. Portanto, quaisquer outras associações que formos capazes de fazer onde temos algo sendo aprisionado por alguma outra coisa e que nos pareça um exagero, repetiremos o mesmo efeito cômico.  Já somos capazes, então, de traçar algumas fórmulas para se fazer rir:

# Falar do corpo, quando é a alma que está em jogo.

Exemplo: “O que acontece depois da morte? Existe um além? Se existe, como as pessoas se vestem por lá?”

# Falar do físico, quando é o moral que está em jogo.

Exemplo:

“Aquela mulher era de uma moral ilibada, mesmo com seios tão fartos.”

“- Ela ganhou o Nobel de Ciências!” “- Também, com aquelas coxas!”

# Tomar no sentido literal, algo que estava sendo colocado no sentido figurado. Exemplo:

“- Meu amigo, a Bolsa é um jogo perigoso. Ganha-se num dia e perde-se no dia seguinte.”

“- Então jogo dia sim, dia não.”

# Falar da roupa, quando é o corpo que está em discussão.

Exemplo: 

“Oswaldo estava tão alinhado no enterro. Parecia bem melhor morto”.

# Falar do terreno, quando é o sagrado que está em jogo.

Exemplo:

“Estava pensando em Jesus, se ele era carpinteiro, quanto cobraria pra fazer uma estante?”

# O mecanismo inserido na vida.

Exemplo: 

“Por favor, repita o eclipse para que eu possa vê-lo”.

# Uma regulamentação automática da sociedade.

Exemplo: 

“Depois de cometer o crime, ele fugiu sobre os trilhos infringindo uma lei da companhia”.

# Uma regulamentação humana a substituir as leis da natureza.

Exemplo:

“Se a lei da gravidade nos prende ao chão, que esta lei seja abolida e criemos uma outra”.

OS VÁRIOS ÂNGULOS DE UM MESMO ASSUNTO

Todo assunto tem, pelo menos, dois lados. É disso que parte a comédia. Se, para cada assunto que tratamos, descobrimos dois lados diferents, ou melhor ainda, antagônicos, teremos já uma fonte rica de piadas. Teremos as nossas duas idéias que andam juntas, até certo ponto.

  • Sagrado x Profano.
  • Solene x Familiar.
  • Clássico x Popular.
  • Realidade x Fantasia.
  • Ideal x Real.
  • Sonhar x “Estar acordado”.
  • Ciência x Bruxaria.
  • Verdade x Lenda.
  • Física x Metafísica.

Estes são apenas alguns exemplos de dois lados de uma mesma moeda. Desta maneira, se, ao exprimirmos um tema, formos capazes de contrapor dois lados, poderemos provocar o riso.

A MUDANÇA DE TONS

Podemos ir ainda mais longe. Para cada ponto de vista, para cada ângulo exposto, existe também uma atitude que está relacionada a ele: falar do sagrado nos exige uma atitude de respeito, de veneração. Falar do profano, uma atitude exatamente oposta. Portanto, a atitude que usamos em relação a determinado tema poderá ser, ela própria, a maneira de introduzirmos a “segunda idéia” ao nosso discurso (que é essencial para se “armar” a piada e provocar o riso). Sendo assim, se falarmos de algo familiar, ou seja, alguma coisa corriqueira, como se ela fosse algo solene, provocaremos o riso. Da mesma maneira, o riso será obtido se você:

  • Falar sobre algo profano como se fosse sagrado.
  • Falar sobre o real, como se fosse o ideal.
  • Falar sobre uma lenda como se você verdade.
  • Falar sobre algo científico como se fosse bruxaria.
  • E vive versa e assim por diante.

Bergson nos diz algo muito interessante:

Regra: obtém-se um efeito cômico transpondo a expressão natural duma idéia num outro tom. Podemos distinguir dois tons extremos: o familiar e o solene. Transpomos o solene em termos familiares e temos a paródia. Falar das coisas pequenas como se elas fossem grandes é, duma maneira geral, exagerar. O exagero é cômico quando é prolongado e, sobretudo, quando é sistemático. É então, com efeito, que ele surge como um processo de transposição. Exprimir, em termos de honestidade uma idéia desonesta; pegar uma situação escabrosa, numa ocupação inferior ou numa conduta vil e descrevê-las em termos de respeitabilidade, é geralmente cômico”.

E ele prossegue:

“A transposição pode dar-se do muito grande para o muito pequeno; do melhor para o pior; de cima para baixo; de um sentido para o outro e vice versa. A transposição também pode ser bem sutil, como a do real para o ideal, do que é ao que devia ser.

IRONIA: Falar-se naquilo que deve ser, fingindo que se acredita que é precisamente o que é.

HUMOR: Descrever-se minuciosamente e meticulosamente o que é, fingindo acreditar que é isso que as coisas deviam ser. O humor é o inverso da ironia”.

EXERCÍCIO 2

Todo tema, toda idéia tem, pelo menos, dois lados, ou dois diferentes pontos de vista. É disto que parte a comédia. Então, pegue a lista com os temas que você selecionou o sobre os quais escreveu no exercício 1. Em seguida, para cada tema, faça uma lista relacionando-o com dois ângulos diferentes. Por exemplo, digamos que um de seus temas seja “dinheiro”. Sua lista de “Terreno x Sagrado” poderia ser:

Terreno Sagrado
Dívidas

Jogo

Empréstimo

Contas

Dízimo

Ofertas

Caridade

Esmola

Agora faça suas próprias listas. Para te ajudar a começar, use os exemplos que eu citei e expresse suas idéias em termos de:

  • Sagrado x Profano.
  • Solene x Familiar.
  • Clássico x Popular.
  • Realidade x Fantasia.
  • Ideal x Real.
  • Sonhar x “Estar acordado”.
  • Ciência x Bruxaria.
  • Verdade x Lenda.
  • Física x Metafísica.

Lembre-se que a lista não se esgota aqui. Depois de usá-la, tente outros diferentes pontos de vista que você pode relacionar com o tema que estiver abordando.

Até o próximo post!

 

 

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